À Harriet Beecher Stowe
Não sei sequer, se quero, escrever estas linhas.
Não sei se se trata de querer - bem-me-quer, mal me quero - de poder ou não, da mais completa falta de poder, ou de juízo, de empoderamento malfazejo, se desculpa ou ensejo ou de muito pouca inclinação ao trabalho ou ausência de algo pior para fazer...
Não sei se deveria, se o dever ia me transformar em uma pessoa melhor, se existem pessoas melhores ou piores, se existe uma só pessoa boa?!
Sei só que existem pessoas sós...
Não sei nem ao certo se o pai do Tomás ainda vive?
Sei eu só, comigo, sem migo, sem parentes, sem amigos e para o eu que vive em mim mesmo... Que "ele" nunca mais voltou àquela cabana depois daquela ocasião...
Viviam Vivian, sua madrasta, Tomás e eu em confortável casa numa região nem tão nobre nem tão pobre, desta mesma exata cidade em que vives.
Poder-se-ia dizer que éramos uma família abastada, ou abastarda, uma vez que o próprio Tomás era filho torto de um relacionamento extra conjugal que seu pai, o dono da casa e da cabana em questão, tivera quando da ocasião do primeiro casamento. Sua mãe Sulamita sumira em direção a Altamira, pois nunca quis ou pode ter filhos e por não aceitar ser a outra... A outra, que era a original, pedira divórcio por não aceitar nem uma coisa nem (a) outra.
Tomás ficara como um espólio de uma herança maldita.
Vivian chegou como mais uma mulher na vida dele e para bem, ou para mal, nunca fizera em sua(s) vida(s) a menor diferença.
Indiferença era seu segundo nome.
Tomás me era um bom amigo, quase um irmão, melhor que os irmãos que jamais tive.
Tínhamos uma relação afetuosa e para mim, e até onde sei também para ele, de grande valor.
Vivi por anos como uma espécie de agregado da família, uma vez que eu sim sou; fui e sempre serei, órfão de pai, mãe, parentes... Nasci pelo parto normal de uma chocadeira, acredito eu, uma vez que em minha certidão não consta nada além da data e da hora em que fui expelido, numa espelunca qualquer do centro desta mesma cidade.
Fui adotado pela primeira esposa, que, infértil, pensava na caridade e na formação de um núcleo familiar, até a chegada de Tomás... Duas vezes abandonado! Mas não guardei dele o rancor, uma só vez abandonado, não era culpado.
Infrutífero dizer que éramos uma “família” pouco ortodoxa, nem católica, nem protestante, pouco conversávamos, de nada protestávamos, em nada críamos.
Eu era franzino, esquálido, lembrando por vezes o torto esquadro do esboço de um espantalho. Tomás guardava uma compleição também estreita e não exibia nem traço físico digno de maiores notas.
Só a título de curiosidade Vivian parecia um fantasma de tão pálida, branca como o mármore de Carrara e o pai de Tomás, este pode-se, deve-se dizer; era praticamente uma alma despenada! A carranca de um ser. Homem alto, magro, uma barba rala, feita à serrote, com uma cara de lenhador canadense. De absoluta falta de tato ou sentimentos aparentes à parentes.
Vivian era apenas um belo vulto que lá vivia.
Talvez por isso eu e Tomás nos apegáramos tanto um ao outro.
O conforto material pode trazer àqueles que nada tiveram uma certa flexibilidade moral, vindo eventualmente a ser um excelente substituto do carinho ou da afeição, e por que não dizer; um substituto ainda melhor, pois palpável e certo!
Assim sendo e assim tendo sido, devo dizer que tive grande facilidade em me adaptar àqueles a quem o destino me oferecera como família.
Chego hoje distante de tudo e de todos a acreditar, num esforço hercúleo de compreensão sentimental, que em essência kármica não é muito diferente da constituição tradicional, das tradicionais famílias cristãs, mulçumanas ou hinduístas... Afora o fato de que em meu caso dever ia-se acrescentar ao acaso; o azar, ou por fim, a sorte de ter sido um forte, e sobrevivido a tudo, a ponto de vir aqui lhes contar...
Que julguem os juízes!!!
O pai de Tomás além de bem sucedido homem de negócios -todos escusos- era por hobby caçador à moda antiga, daqueles que se orgulhavam e ostentavam cabeças de animais empalhadas, armas e troféus em meio à baranguiçe endêmica da decoração de casas de famílias, de um modo geral...
Como todo mau capetalista e caçador que se preze era um homem frio, distante e calculista, sendo estas qualidades quase que uma espécie de requisito para se vencer na selva da cidade, na guerra dos negócios (escusos ou não) e em campo aberto, no calor da caçada.
Fui trazido ao aconchego do lar desta família desmembrada, numa semana de natal, ainda criança de colo. Tomás era por sua vez não muito maior, Vivian recém-chegada, mais parecia um troféu a mais exposto na gigantesca sala.
O pai de Tomás sempre me parecera um daqueles enormes ursos empalhados que vemos nos desenhos do Pica-pau ou em algum filme de Sessão da Tarde.Imóvel e “impassível como a mobília” com os dentes arqueados saltados para fora, prontos a nos devorar...
É claro, e a um só tempo obscuro, que muito do que sei sobre minha chegada e meus negros primeiros anos me foram contados no leito de morte por Vivian, que vi não mais viver quando ainda jovem, muito jovem.
Três vezes abandonado!, não que tenhamos eu e ela, ou eu Tomás e ela desenvolvido algum específico ou especial amor uns pelos outros, mas talvez e quiça tenhamos tido uns pelos outros, uma espécie de dó mútua que se tornou de certa forma e sob alguma medida em algum tipo de carinho... Contudo muito diferente e distante do que me disseram ser o amor verdadeiro de uma mãe...
Mas ainda aqui Vivian vive! vivo eu e vive Tomás!!!
Quero crer para não ter em absoluta e irresoluta má conta o homem que afinal me criou, me deu um lar, me deu possibilidades físicas reais de me desenvolver e viver... Não ser um homem mau, mas tão somente: amaldiçoado... Amaudiçoado...?!
Este homem passava seus finais de semana em uma cabana que possuía, e que o possuí à beira de um lago em um braço de uma represa, distante uns cerca de 200km da cidade... Raros eram os finais de semana em que tínhamos autorização de para lá nos dirigirmos, família Frankenstein que éramos..
Me lembro de umas poucas ocasiões, tão poucas que não tenho muito o que dizer do local, além de que era uma cabana aos moldes destas dos seriado de Daniel Boone, de madeira, tamanho médio, com uma ampla sala com lareira, e não mais de um ou dois quartos, varanda virada com vistas para o lago parado, e nada mais. Era o retiro do retirante, o lugar onde o pai de Tomás se afastava ainda mais de nós, de todos e de si mesmo...
Acredito que certos homens prescindem de religião ou de cultos para encerrarem em si forças malfazejas... Creio que esse era um desses homens!
Como disse, não que fosse um homem exatamente mau, mas não praticar o bem, é senão uma forma de manter o mau vivo, de perpetuá-lo.
Nunca pude compreender a natureza desses exílios em que ele se metia, tão pouco Tomás,que, criança mimada que era e sujeito assujeitado que se tornou, nunca se pronunciou ou questionou-o a respeito de nada... E Vivian vivia vida vadia vazia vaticina e vulgar de madame de porra nenhuma.
E assim foram-se os anos passando e atropelando-nos, tendo eu como podem ver me tornado quando muito em um cínico e inescrupuloso herdeiro de uma se não boa situação, ao menos infinitamente melhor do que teria, e tive; por nascença.
Mas algo em mim levou-me a desenvolver um lado espiritualista, dir-se-ia-se, e me descobri um tipo de sensitivo, de médium... Médico da alma.
Lembro-me, como se fosse amanhã, da primeira vez em que percebi naquela cabana os espíritos de animais mortos, e o espírito morto daquele animal vivo a que chamávamos de pai.
Havia uma coruja empalhada que me olhava com seus olhos amarelos esbugalhados e suas enormes asas abertas e me dizia:
-Esse homem caça algo mais que simples corpos! Atenta-te!!!
Gostaria de dizer em minha defesa que, até onde sei, estes “dons”, são algo que vem naturalmente, não sendo uma escolha ou algo que escolhemos, apenas sentidos, apenas sentimos.
E como tudo o que está além do mundo físico-tísico da vã compreensão humana, nos é dado como uma herança macabra por motivos que desconheço.
Anteriormente numa última noite de final do último ano em que viveu, senti, ao cruzar com o pai de Tomás pelo corredor da casa, um calafrio tão frio percorrer-me todo o corpo que creio que se não estivéssemos no aconchego do lar em pleno verão tropical, ter-me-ia congelado as tripas! quando olhei-o de volta vi - juro por todo o panteão dos deuses gregos e hindus - Vi um vulto se despregar dele como um prego se solta de uma parede de gesso!
Confuso culpei o vinho pela visão que tive... Mas ao me recostar ao travesseiro aquele vulto me veio e se deitou comigo, pregado ao meu sensível e sensitivo ser como um prego de aço em muro de concreto!
Dali, sem Gala, em diante, fui-me quedando cada vez mais distante daquela figura paterna, que a mim nunca fora exatamente fraterna... Mas sofro por Tomás!
Talvez tal hiper-sensibilidade e desapego naturais de órfão tenham a mim sido dados para protegê-lo do gelo daquele coração, da família despedaçada, da sorte amaldiçoada que tivera Tomás...
Tão pouco eu sou um homem de fé, quiçá de fezes!
Entretanto e hoje distante, digo-lhes ceticamente pensar ser eu, espécie qualquer de anjo da guarda daquele meu torto irmão.
Senti, sentia, que agora naquela casa vazia, sem a presença de uma alma feminina, estávamos cada vez mais enclausurados àquele espírito inferior, àquele espectro ambulante, que ao cabo tinha erguido um império de nada! de dinheiro distância desdém e desunião...
Nessa altura, uma vez que tínhamos Tomás e eu atingidos a maioridade legal, ele não mais precisava legalmente de nos fornecer sequer sua presença física, isolando-se agora quase completamente em sua cabana à caça de suas almas.
Próximo da região em que se desencontrava a tal cabana, existia-resistia uma comunidade de índios Maxacali que dividia com o pai de Tomás o fruto de suas caças, tendo sido por várias vezes surpreendido e repreendido pelos índios devido a seus métodos nada éticos, mas não chegando a terem nenhum tipo de desentendimento mais grave, ou querela que pudesse render problemas para quaisquer um dos lados...
O único detalhe que vim posteriormente ouvir contar, através de inquérito policial, é que o pajé da tribo, declarara sentir um grande vazio se apoderar de toda a região na mesma época em que ele construíra a cabana e que começara suas incisivas caçadas.
Me foi ainda relatado pelos oficias, e não oficialmente pelo pajé, que na época em que foi visto pela última vez havia sido encontrado na região um grande lobo, como não se via há anos, e que este animal rondara a cabana, e a tribo, por noites sem fim. Talvez não por coincidência o pai de Tomás passara a viver em definitivo na cabana, nos deixando com uma governanta na casa na cidade. A obsessão pela caçada o prendera em definitivo e nós não representávamos mais nem espetáculo nem empecilho a seu espírito empobrecido.
Era um começo de uma manhã ainda muito escura e o caçador terminava de arrumar seu arsenal no silêncio sepulcral da aurora, quando como uma lufada de vento o enorme lobo atravessou a janela da cabana, re transformando o vidro em areia... Desfazendo-se da carne, voltando a ser carbono, éter e hidrogênio como um gênio que sai em forma de fumaça de sua lâmpada, entrou como uma tempestade para dentro do corpo do caçador, que, retorcendo-se enlouquecido uivando enfurecido, pegou com uma das ainda mãos - a outra pata se debatia no chão da cabana, fazendo-se ouvir o barulho infernal por toda a região- e atirou através do crânio do monstro uma bala tão poderosa que se alojou pra sempre na alma daquele que um dia fora um homem...
5 x Palavra & desde 1975_Espalhe Espelhe Expila Explique Replique Duplique Triplique Publique a PALARVA_!!!
segunda-feira, 3 de junho de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Agente Duplo..à um mendigo qualquer..
São duas vidas;
São dúzias de vidas;
São duas dúzias de vidas;
As que vivo pra fora,
A que..morto por dentro.
São ou não São?!
Eis a questão..*
*(Chora
Chakespeare!?)
Político.
Polido.
Hipócrita.
Corrompido.
Afora.
Poeta.
Asceta.
À séculos.
Adentro.
Pessoas falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam..
Falo é o meu pinto!
Falo sobre o que penso.
Escrevo sobre o que sinto.
São dúzias de vidas;
São duas dúzias de vidas;
As que vivo pra fora,
A que..morto por dentro.
São ou não São?!
Eis a questão..*
*(Chora
Chakespeare!?)
Político.
Polido.
Hipócrita.
Corrompido.
Afora.
Poeta.
Asceta.
À séculos.
Adentro.
Pessoas falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam..
Falo é o meu pinto!
Falo sobre o que penso.
Escrevo sobre o que sinto.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
O Picadeiro do Poeta!
A vida toooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooda
Um poema
que não vale
a pena-
Contenda
que não vale
a prenda-
Pena de galinha
Pena de morte
Com sorte
Alguém o lerá
(Para seu próprio infortúnio e azar)
Se em assim sendo
Quiça;
De tí
-Poeta Palhaço-
Ao menos
Algum credor
Se lembrará!?
Um poema
que não vale
a pena-
Contenda
que não vale
a prenda-
Pena de galinha
Pena de morte
Com sorte
Alguém o lerá
(Para seu próprio infortúnio e azar)
Se em assim sendo
Quiça;
De tí
-Poeta Palhaço-
Ao menos
Algum credor
Se lembrará!?
Hemorragia Externa! *
*À uma huma-nidade..sem futuro desde o tempo da caverna..
Acordei Suando Sangue
Coração inchado
Espírito linchado
Moral afogada no mangue
"Doente de chagas plebéias"
Sangue ruim
Vermelho escuro
Artificial
-cor de tang-
Minh`alma/Miríade/Miasma
A`lma buraco negro
Linfático
De fato
Se é que existe
-desiste-
Vazia como o corpo dum fantasma
Matéria Escura
Errática
Impura
Perdida em massa cinzenta
Fétida
Pútrida
Bolorenta
Eterno Etéreo
Materno Desatino
Ebúrneo desafio
Deslize do destino
Faça Calor
Ou
Faça Frio
Comprime/Reprime
Me arrebenta
-&Se exprime
Pulsa/Repulsa
Me enlouquece
Me expulsa
Razão
Matéria Inpune
Como casa humilde
Feita de tapume
Que o sopro dum anão asmático
Destroi Destrona
-D-e-s-u-n-e-
Nos nossos ossos
Se esconde
..Quando quanto
mais se dela precisa
mais como a lua vaga
distraída..
Nunca se sabe
Pronde
Donde
Douda
Sequer se virá
Bem me quer
Mal me quero
Assim espero
Assim sincero
Verdadeiro
Vil
Violento
Acordei Suando Sangue
Coração inchado
Espírito linchado
Moral afogada no mangue
"Doente de chagas plebéias"
Sangue ruim
Vermelho escuro
Artificial
-cor de tang-
Minh`alma/Miríade/Miasma
A`lma buraco negro
Linfático
De fato
Se é que existe
-desiste-
Vazia como o corpo dum fantasma
Matéria Escura
Errática
Impura
Perdida em massa cinzenta
Fétida
Pútrida
Bolorenta
Eterno Etéreo
Materno Desatino
Ebúrneo desafio
Deslize do destino
Faça Calor
Ou
Faça Frio
Comprime/Reprime
Me arrebenta
-&Se exprime
Pulsa/Repulsa
Me enlouquece
Me expulsa
Razão
Matéria Inpune
Como casa humilde
Feita de tapume
Que o sopro dum anão asmático
Destroi Destrona
-D-e-s-u-n-e-
Nos nossos ossos
Se esconde
..Quando quanto
mais se dela precisa
mais como a lua vaga
distraída..
Nunca se sabe
Pronde
Donde
Douda
Sequer se virá
Bem me quer
Mal me quero
Assim espero
Assim sincero
Verdadeiro
Vil
Violento
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Cadáver Esquisito!..À Rimbaud..
Sinto-me
Mal/Feio
Desfeito
Sem freio
Sem requisito
Esquivo
Furtivo
Suspirando
Arquejando
Arquivando
O Grito
&
Almejando
O fim
Do
Infinito!
Besta Burra
Barco Bêbado
Puta Suja
Fio do fio
Sem meada
Que perdeu
O rumo
Que atolou
na estrada
Estranho
Estanque
Estando
Se a vida é
Só um teste
..1, 2, 3, testando!?
Filho do Filho
De
Uma
Égua
Que
Pariu
Um
Cabrito!
Mal/Feio
Desfeito
Sem freio
Sem requisito
Esquivo
Furtivo
Suspirando
Arquejando
Arquivando
O Grito
&
Almejando
O fim
Do
Infinito!
Besta Burra
Barco Bêbado
Puta Suja
Fio do fio
Sem meada
Que perdeu
O rumo
Que atolou
na estrada
Estranho
Estanque
Estando
Se a vida é
Só um teste
..1, 2, 3, testando!?
Filho do Filho
De
Uma
Égua
Que
Pariu
Um
Cabrito!
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A FADA DOS DENTES!?
O que vou contar a você meu leitor, seja você quem ou quantos for ou forem, esteja ou esteje, o que é errado dizer e escrever sobremaneira; onde estiverem..é o que meu avô, um homem de noventa e poucos anos na ocasião, me contou como sendo a pura verdade, eu por puro, tomei se não como tal, como sendo ao menos uma estranha história..
Assim o foi, assim o fiz e aqui estou para lhes narrar um ocorrido contado na época da infância deste meu único, "último" avô.
Pois ia o eu que agora sou, por um atalho que desviava uns bons metros do caminho de volta, ou ida, mas me ocorreu na volta, não me perguntem o porque, junto ou separado?, se é que à alguém ocorreu de me perguntar, em direção de uma simpática e seca cachoeira, a uns poucos quilômetros da casa de meu ancestral. Atalho este no qual avistei, ainda que por entre o mato que ia alto, uma carcaça do que fora um belo casarão do começo do século passado, penetrada pelo musgo, destelhada- desdentada, deflorada pelo tempo como toda casa antiga e abandonada deve merecer ser, e via de regra infelizmente o é.. Ocorre que este eu que imprime estas palavras, que as aspira por entre os dentes, por um sem; cem números, de motivos, nenhum deles explicáveis, sempre nutriu um amor estranho por casas antigas, abandonadas em especial..uma espécie de bucolismo de um passado que não viveu, um leit motiv, anacrônico-atemporal..e com esta não estava sendo diferente.
Depois de bem revisitada, devidamente admirada e fotografada a casa e o imóvel como um todo.. -uma vez que imóveis não se movem- ..quem teve que dali se mover fora este seu narrador em primeira, segunda ou terceira pessoa(s), e continuar seguindo a trilha de seu percurso deixada na ida..
Entretanto, já ali, algo deveras intrigante ocorrera!
Apercebi-me, no que houvera sido a copa da casa; o único banheiro jazia ao lado e sem pia, à moda dos franceses..de que a pia, que de fora se quedava, era encimada por uma fileira de azulejos que iam só até certa altura da parede, não por toda ela, à moda dos pobres..de que nos tais azulejos haviam alguns decalques, como aqueles que vinham nos antigos chicletes: desenhos pela metade que dali não saíram e que já não diziam mais coisa alguma.
Entretanto UM deles, do qual tenho fotos minuciosas, -e se este não fosse um conto daqueles onde só é permitido o ingresso de letras..as mostraria regojizante!- era de uma estirpe absolutamente diferente, não só em matéria de matéria, mas sobretudo no tocante ao desenho em sí..dó ré mi fá sol lá..”si”..é que era um desenho, era por certo; e ao menos, musicalmente indecifrável como uma nênia em grego!!!
Por durante uma boa meia hora o porra do desenho,sua imagem, seu som e seu cheiro.. me quebraram a cabeça e o que restou dentro dela, na tentativa vã..nada sã..de decifrá-lo!?
Sou um tipo enigmático, que odeia enigmas!
Vou tentar descrevê-lo, e aí vocês que se virem: O contorno era o de algo que parecia a silhueta de uma mulher num vestido preto, o ‘coiso’ era mono cor..lembrando um manequim..com um tipo de corda que saia do meio dela e se prendia a algo, este sim era verdadeiramente disforme, mas não maior que a silhueta que dele se desprendia..
Enfim, foi a imagem que captei, que a mim mesmo em um primeiro momento pareceu desprovida de qualquer sentido. Portanto não se aflija se também ainda nada houver compreendido patavinas, pois esta é daquelas histórias em que o entender ou o acreditar, são meros panos de fundo e que como as mortalhas, com o tempo, mais escurecem que clareiam..O tal desenho; para aumentar sua estranheza e desconexão com qualquer um dos outros mundanos decalques de chiclete que ali se ‘apregoavam‘, era de uma textura tal qual houvesse sido queimado no próprio azulejo, nunca como se houvesse tão somente sido pregado, colado ou afixado por qualquer outro meio.
Era uma fenda queimada, fundida, esculpida, tatuada no coração da peça cerâmica!.
Segui de volta a casa deste meu avô, montado faltou me dizer, no lombo de uma bicicleta.
Ao por lá desapear, ainda bastante excitado com o passeio, com a cachoeira nem tão seca quanto imaginei..
-que em seu caminho abriga também uma linda, gigante, frondosa e assombrosa árvore, que outras vezes me albergara por algumas horas em seus braços e pernas, à ler o amado dos Anjos; Augusto!-
Contei de pronto ao avô a respeito da tal casa!, em verdade perguntei a respeito da tal casa!; o avô depois de me devolver algumas perguntas pontuais a cerca da localização mais específica do casarão, sentou-se ainda mais sem forças do que o normal, já com a face embargada, a garganta enózada.. Me contou exatamente o que vim aqui; neste, lhes contar, o que até aqui, até agora, ainda se fez não mais, que um ensejo..que é a origem deste conto e o começo de algum sentido para aquele estranho desenho impresso na lousa da pia, da copa da casa!
A BALADA DO DENTISTA
No começo de um século depois daquele, em que o próprio casarão centenário fora construído, e do moinho por ele circundado, errguido, quase que imediatamente depois da mudança da família do Barão, proprietário do casarão, que ocorreu o ocorrido..portanto breve, triste história e família ali, bem ou mal, constituíra-se..
O tal barão tinha se mudado, pois sua amada esposa falecera vítima do mal do século, em distantes terras por ele cultivadas bem no interior da região. Agora velho e cansado decidira-se por morar mais próximo da cidade.
Sua família reduzira-se à sua única filha, moça de vinte e poucos, nem feia nem bonita, entretanto dotada de uma sensualidade e inteligência que cativaria o mais burro dos homens, ou cegaria o mais vidente..como os homens são burros em matéria de inteligência e cegos frente as imposições da sensualidade..
Em famílias pequenas grandes são os laços emocionais..somado a falta da mulher, o barão passara a sentir-se atavicamente atrelado a sua queridíssima filha, que órfã de mãe, redobrava os carinhos às barbas do velho..assim, como num conto de fadas, seguiram-se os anos após a prematura e inesperada morte da matriarca..
Talvez a maioria de vocês não se lembrem, confesso que precisei da precisão de meu avô para lembra-me, de que nos séculos passados os profissionais liberais eram verdadeiros ambulantes; e de vendedores de maças à dentistas, perambulavam pelas cidades, arraiais e municípios, os mais diversos tipos de profissionais, oferecendo seus produtos e serviços..
Foi em uma dessas ocasiões por bem; a princípio tida, que surgiram num belo dia, em frente ao pórtico do casarão: um burro, um cachorro e um homem! que se apresentava como dentista..que por coincidência, ou não, se fizera extrema e pontualmente necessário, uma vez que a jovem e o velho precisavam cada qual à sua urgência, de algum tipo de cuidado naquela região em que os dentes ficam dependurados..
Após feitas as negociações de cunho monetário, estudados os casos clínicos, o Dr. fora Instalado em um casebre nos fundos da propriedade para descansar da extenuante viagem para assim poder começar, já na manhã seguinte, os trabalhos.. Que pelos seus cálculos levariam em torno de umas três ou quatro semanas entre anestesias e recuperações, extrações e perfurações, a serem definitivamente concluídos. Uma vez que o mesmo dali seguiria rumo a capital para implementar seus estudos, talvez estabelecer-se, sendo então impossível seu retorno, deveria o trabalho ser feito de uma só empreitada!
Na manhã seguinte após o leite da vaca espremerem, os pães dos fornos retirarem, as manteigas das garrafas rolarem e os queijos encharcados ainda pelo soro fresco serem partidos; dentes escovados, foram ao trabalho o um e à faca os outros!
Seguiram assim por dias, alternando efeitos sedativos, descansos, sangue e dor..
Ocorre que do contato diário e no percurso de pouca mais de uma semana a filha percebeu entre uma agulhada e outra que algo perfurara seu coração..e esse algo não era a agulha do doutor..mas a flecha certeira do amor!, que por uma dessas casualidades que só o destino explica, também sentira tal pontada!
Depois de cuspido algum sangue, antes de o barão assumir a posição adequada, quatro olhos se cruzaram (nota: ninguém nesta história usa óculo) de um canto ao outro da sala, num balé que só a dor de um dente poderia ser mais forte ou pungente!
Aquela noite não fora a mesma para nenhum dos dois -nunca mais para eles-.
Passados alguns meses, a filha do barão, como todo barão homem rude e importante de posses e poderes, aparecera com o que quis se acreditar ser em princípio um lumbrigueiro, mas que após uns dias constatou-se através da ajuda de uma parteira; tratar-se da barriga mais grávida que se poderia encontrar nas redondezas..
E redonda!
As coisas mudaram entre pai e filha.
A menina nasceu fêmea e só fez crescer! tornando mole o coração duro do velho barão, que procurava entre seu empregados e capatazes aquele que fizera tal desconsideração, pois haveria de matá-lo, ou na melhor das hipóteses simplesmente: capá-lo!
A rapariga, não mais moça, danada de inteligente que era, esquivou-se como e o quanto pode, até o dia em que confessou-se, dizendo ter sido o dentista o felizardo!,
mas como este seguira seu caminho sem deixar grandes esperanças e nenhuma notícia..
Se não fora um de seus, ficava melhor paras as questões da honra, pensara o barão..
Todavia, não poderia ser diferente, mandara encontrar a qualquer custo o Dr. que haveria de pagar tal audácia, sobretudo a do abandono; com a própria vida!
E assim o foi.
Encontrado com demora porém com certa facilidade o responsável, uma vez que já instalado na capital estava, os quatro capazes capatazes, voltaram com o infeliz até o município, o que significava sacolejar alguns dias no dorso de um cavalo.
Importante dizer que, no todo, uns dois ou três anos já se haviam passados, a menina crescera e tomara o formato do amor, no coração do velho, que arrefecera-se em relação a filha, chegando ao ponto de praticamente esquecê-La .
Para ele; intimamente, a neta tomara o lugar da alma da falecida esposa..Era ela! pensava ele baixinho, no cair da noite..
Desconhecedor das matérias de espiritualidade, mas doutor em matéria de saudade, e no embalo do berço repetia: era ela!, era ela reencarnada!!!
Deram um fim no doutor que fora de uma crueldade extrema, sem sequer deixá-lo a mercê da justiça o largaram nas mãos da sorte, ou melhor do azar..
Para aqueles mais sensíveis, sugiro que abandonem a leitura agora!
Por não ser tão afeito à crueldades, vou apenas resumir que os quatro capatazes seguraram o Dr. Pelos braços e pernas e bêbedos do cansaço da longa viagem; de algumas garrafas de aguardente produzidas ali mesmo no moinho, dispensando a força dos cavalos; partiram os membros do Dr. ainda vivo, destroncando-o até a morte!
O que ficou imóvel e em seu lugar foram só a cabeça, e seus trinta e dois dentes..
É claro que tudo se passou sem o conhecimento da filha, da lei e de qualquer outras pessoas que os cinco..
Mas o que se sucedeu é ainda mais estranho, pois em pouco tempo; um a um, os capatazes foram morrendo de maneira estranhíssima!
Um morrera engasgado com a própria saliva, outro atropelado por um trem de carga carregado, o terceiro levou um coice de seu cavalo que lhe afundou os órgãos genitais até a região do cócix e o último teve sua cabeça esmagada pela única cruz de Mármore de um grande jazigo de família do-no pequeno cemitério local..
Para o barão aquelas mortes simultâneas e inexplicáveis ganharam vulto de loucura..
Como se não bastasse, em um dia nada belo, a neta do barão fora encontrada prensada nas rodas do moinho, que rangia e travava com o pequeno peso daquele pequeno corpo..
Desnecessário dizer que o barão e a filha, sobretudo o barão, viveram o resto de suas vidas numa existência miserável..
Dizem que a filha corria e se escondia pelos matos enquanto o barão chorava, rangendo os dentes, ao lado do moinho..
O casarão após a morte do que sobrara da família, fora abandonado e esquecido..
Quero crer, com lágrimas nos olhos, ao ouvir tal história, tendo sido de qualquer forma e para este narrador a única explicação possível para o tal desenho que vira, que só agora o entendera:
Era a silhueta da filha do barão! e de seu cordão umbilical, atando-a à sua criança que praticamente já nascera morta..
Aquele desenho era a prova de que tal história que se contava, que meu avô me contara, era nada além de verdade, da mais pútrida verdade..
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