quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

IMEDIATO INDETERMINADO.. À Poe !

Um Poema.
Uma Anêmona.

Um Conto.
Um Corvo.

Um Conto
Notí..vago..
& negro

Como
Um morcego!

Um Poema Estânico-

Um Labirinto De Palavras.

Estranho..

Como
Um
Ornitorrinco!

Vida em Marte!

As Obras De Arte.
As Sobras Da Arte.
As Dobras Em Arte.
As Cobras Da Arte.

As Obras Em Marte.
As Sobras De Marte.
As Dobras De Marte.
As Cobras Em Marte.

As Obras Em Parte.
As Sobras Da Parte.
As Dobras Se Parte(m)
As Cobras A(`)Parte.

Ódio Criativo.

Vou escrever um poema
para matar o tempo!

Quando ele estiver bem
morrido..

Terei todo o tempo
de escrever
todos
os poemas,

Que nunca tinha
tido..

Uma Só Andorinha!?

Pequena Andorinha
Pouso no meu peito.

Refeito do susto
que senti(mos)..

Percorreu-me forte
onda de calor.
-era verão-

Anunciava a chuva..
ainda que não soubesse

Horrorizada fitou
Petrificada ficou

Hesitei.
Ousei..

..coçei
seu
côco.

Fez
seu
cocô..

Voou ao chão.

Procurou-me
de lá-

Ansiando
Contudo
Consolo
dos pais..

Revoavam aflitos.
Azuis no azul infinito.

Formando uma coroa de pássaros
sobre minha cabeça..
-como quando se leva um bom soco numa boa história em quadrinhos-

Cada qual com seus ais,

Sei eu só..
Que nunca mais
seremos iguais..


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Guilhotina!



Pesada é a mão da justiça, ao menos da divina, pesado é o calor agreste, pesado como o livro de Camus..A Peste. Pesadas são as humanas consciências, sobretudo, sobre o tudo; por baixo o nada...

Pesadas são as janelas dos antigos casarões daquela região..região sem nenhuma e/ou definida localização...região sem religião..

Destes lugares tão distantes, bem depois daqueles em que se está apenas longe..daqueles em que se dói até o tendão de aquiles, daqueles que ousam ousar lá conseguir chegar..

Distantes de tudo, distantes do mundo..lugares onde se chega falante e se sai..mudo!

Lúgubres lugares..

O que posso adiantar para tentar definir ‘geodésica mente’, a geografia genética geral deste município..é que a princípio este acontecido aconteceu em nosso país!, em época nem tão distante..

(Nota : Aqui e até agora tudo era distante, e num instante o presti-digitador-escritor encurtou o tempo, trazendo o que era distante pra um presente mais ou menos próximo -algo deve nos ser próximo para que possamos manter o efeito do verossímil- inverossímil, tanto no pacto ficcional, quanto quando se usar; blush ou rímel-?!)

..numa localidade rural dum sertão; ser tão preciso, é difícil pra mim..um sertão que como qualquer sertão Euclidiano, Racheliano, Roseano ou José Americano; era quente, quente, quente como deve ser quente o inferno, como deve ser quente uma puta, ou um puto, como deve ser quente um café..

Ocorre que de fato, e para o bem da verdade; se, à alguém ela vir a interessar, possa..

Não sei muito mais do que gostaria de tentar neste reproduzir, pois recebi este ‘relato’ por carta, enviada por uma parente distante..que vivia neste mundo distante..e a tal carta contava a história que vim neste cont(o)ar..

Um casarão era a sede de uma fazenda de criação de porcos, aos poucos vou lhes jogando as pérolas, meus porcos leitores..e além das pasolínicas pocilgas haviam tão somente plantações para fins de subsistência e por pura insistência; de feijão, mandioca, milho e algumas outras quaisquer(s) coisas que nascessem naquela maldita terra morta, e é quase claro, haviam ainda algumas galinhas, e duas magras vaquinhas, como não poderia deixar de ser, no sertão.

Todavia o que movia a sua eco-nomia-ignomínia era, grosso modo e porcamente, a criação de porcos..

A carta me chegara em lombo de burro, de duas pernas, na algibeira de um primo desta prima e que era analfabeto..Primo Beto, que viera a pé, a maneira dos retirantes, e a pedido dela antes de continuar sua contínua diáspora pessoal, passara em minha casa para deixar este desesperado relato do que sobrara desta família..dei-lhe pouso por dia e meio.. antes que o sol do segunda dia se pusesse, e ao cabo deste, sem nada dizer; desaparecera sem deixar nem um bilhete, a única parte inteligível de sua fantasmagórica aparição..

Pelo que entendi e calculei só haviam restado os dois..?!Penso que nunca saberei, sei que nunca quis saber..

Seu pai, de quem meu pai havia uma única vez falado se chamava Guilherme, meu xará, esta sim estranha coincidência, maldita ascendência*..Segundo meu pai explicara, tinham se desentendido em criança e nunca mais o vira, o ouvira dele(s) falar, família judia holandesa, que como bons judeus, sobreviveram ao êxodo; e em êxodo, país a dentro, mundo afora, até conseguirem se estabelecer num sertão desconhecido qualquer..(Leia-se Cu do Judas qualquer, ainda que não se saiba se Judas tinha cu, culhões ou que sequer fosse judeu..)..o mais longe possível um do outro..

Fala o narrador-

*A Família; é, depois da religião, a instituição mais sórdida e alienante que foi pelo homem instituída..e ao contrário do que nos fazem acreditar, é certamente a razão de boa parte de nossas fraquezas e pequenices enquanto sociedade..enfraquecendo-nos e ‘estupidecendo-nos’, tornando-nos mais vis, egoístas e inflexíveis...superprotegidos por mamães, vovôs, titios e titias nos quedamos eternamente num ninho-limbo que nos impede de avançar enquanto seres humanos, transformando-nos em eternos reprodutores dos medos e angústias de gerações, que nos são enxertadas sem nossa permissão ou vontade, reduzindo nossos horizontes e possibilidades sem que venhamos a nos dar conta..e para nosso próprio bem..!?..ainda que não saibamos que para nosso próprio mal...É preciso destruí-La!!!

Desconheço sobremaneira como me encontraram..!?

A carta; mística maldita missiva, começava anunciando o fato, e em breve relato acrescentou dentre outras coisas; que, talvez venha a lhes contar...

Ela se chamava Guiomar Lhosada Cristina.

Homenagem à mãe que morrera poucos anos após sua chegada à terra prometida, e que tinha origem árabe, por isso Omar, homenagem ao avô, e Cristina, à sua querida avó; Tina. O lhosada era comum ao judeus ibéricos...Acrescentou ainda em nota pessoalíssima que seu pai ‘Gui‘..uma vez embriagado lhe confessara o que nem a sua falecida esposa sabia: o velho sempre, sempre sonhara em conhecer o mar!..e nunca respeitara verdadeiramente a origem da esposa, tendo por isso, e de pronto, concordado com tão horrível nome..

O seu sertão e seu coração eram secos, secos como a razão em um sibarita!, e até o momento em que viveu, apesar de que não poderia afirmar, que tão pouco estava morta..seu sertão nunca virou mar.. -piadinha sem graça-

E Guiomar nascera e crescera; já na fazenda, já em adiantado estágio de putrefação, já cheia dos porcos, já cheia dos mortos, já cheia das janelas..janelas em que praticamente vivia, janelas que se para lugar algum se abriam, por onde por mais que se esforça-se nada, digo nada vezes nada, digo dez vezes Nada!, delas se via..


Tão vazio e ermo o lugar, que poderia se por a termo; e dizer, que de alguma coisa fugiam..

O pai trabalhava praticamente sozinho e afora um sobrinho de quem não lhes contei por preguiça, havia somente o primo, de quem lhes contei por motivos óbvios..não havia ao que parece mais nenhum empregado que os ajudasse, ainda que em verdade fosse um serviço ‘leve‘, uma vez que por sorte, ou estratégia, os porcos não serem uma criação que se exija grandes cuidados, sem ofensa..

Das várias questões que me foram surgindo, daquela improvável história, a primeira que me assaltou foi a de imaginar um judeu criando porcos, casado com uma árabe, criando uma filha não batizada, ou “barmitz vah izada” e relegando um sobrinho, seja lá de quem for filho, ao analfabetismo- caso raro entre os semitas.

Tudo muito mal contado!; por isso, mal vos conto.

A bem da verdade, ou à mal da mentira, nem sei exatamente qual é o ponto do que vim aqui neste com vocês compartilhar..As vezes ao reler este relato, ao reler a carta, ao rever a história, ao lembrar do pouco do que meu próprio pai me contara sobre esta parte da família, penso que isto tudo não passa de uma espécie de piada judia, daquelas cheias de humor negro, de autocomiseração..o que chamaríamos hoje de pegadinha..

Porquê alguém que nunca vi, e que nunca mais veria, me surge do pó, para me entregar uma carta, de alguém de quem eu jamais ouvira falar?

As vezes imagino que esta carta tenha sido para ela uma espécie de sobrevida, algum tipo de ligação com a realidade, uma única-última chance de alcançar a posteridade..isso se já estiver morta..


Tudo que escrevemos vira memória, e a memória desgraçadamente na maioria das vezes é tudo o que nos resta..

Uns insistem que a escrita autobiográfica não é literatura, entretanto me pergunto: Existiriam livros sem as gráficas? (sem editor existiriam..sem leitor, não sobreviveriam..)

Pergunta retórica, não apostólica, tão pouco Romana..a verdade é que a verdade; não existe!!! Entretanto e de um diário ou de uma carta algo próximo dela- a verdade- emana, irmana e nos transmite uma história..com glória ou sem glória, mas uma história..

Guiomar, me contara que havia lido muito; três livros: O Corão, A Talmude e alguma das inúmeras versões da Bíblia Católica.


Pouco sabia de algo que houvesse ocorrido nos séculos posteriores a tessitura destes três textos..tendo nascido na fazenda, crescido na fazenda, vivido na fazenda e..?..na fazenda..!

Cartas que vem em lombo de primos burros, ao contrário das que vem pelo correio, não precisam de remetente, não precisam o local e as circunstâncias da postagem.

Assim sendo e assim tendo sido, a sensação que me ganha é a mesma de se assistir a um filme sem saber por quem fora dirigido, produzido ou filmado..que quintão-quintal do mundo está sendo retratado..se é falado ou mudo!?, ou seja, me sinto como um retardado.. -alienado mental, se preferirem, apesar de estragar minha rima-

Como dizem os documentaristas: ‘Quando a realidade parece ficção..é hora de fazer documentários‘, no meu caso tudo que almejo; é, ao máximo, tecer comentários..

Ainda que este por vezes me pareça um roteiro de um bom filme de terror!!!

Explico-me-explico-lhes: A Carta; Conto; Relato; Roteiro..grito desesperado, começa de verdade e “se explica”, se é que se explica, quando Guiomar finalmente admite o motivo de tê-La escrito, e após haver feito uma série de velados desabafos a cerca de sua criação cercada de mistérios e cuidados, relatos os quais vou lhes poupar tamanho o detalhismo e por que não dizer cinismo, com que ela os descreve; enfadonhos.

Me pareceu que meu xará, queria que a filha não tivesse decepções, dessas coisas com que o mundo nos transborda, e vivesse numa espécie de exílio-idílio movido apenas pela fé, ou pelas fézes..ou pela falta dela(s)..que se criasse numa educação irreal e (i)rreligiosa, sem religião definida, apenas com a crença na vida, por mais enfinda e descabida..que seja a compreensão que a fé ‘nos’ infunde, confunde..!?

Findadas às elucubrações ‘preambulatórias‘..Guiomar começa sem pressa, e de uma forma como a de quem quer verdadeiramente nos convencer, de que por mais absurdo que tudo aquilo parecesse..ela estava falando a verdade!..ainda que sua vida pregressa, nos faça pensar, e pesar, exatamente o contrário..de que não estava alucinada, não estava, como posso dizer: assombrada?!

A sua jovem mãe tinha seu velho esqueleto enterrado entre a cerca de entrada da fazenda e a casa. Não havia cruz, não havia pedras, não havia flores, não havia dores, não havia saudade, não havia nada..
O Pai, pouco dela falava, e ela quase nada, dela perguntava. Pareciam viver numa espécie de bolha no tempo, num espaço onde não existia passado, presente e ou futuro, um lugar com cerca, mas sem muro..

A única marca que indicava a existência de uma cova era um pequeno montículo natural que a terra engendrava de formato oval, coval, eu diria.

Imperceptível ao olfato de um cego, diria o p(r)o(f)eta.

Mais de quatro páginas já se passaram, mais de quatro décadas, e mais uma vez talvez, só talvez, mas nunca por coincidência..foi também na quarta página da extensa carta, que envergonhada, com a alma embargada de emoção, ou alucinação; preciso dizer em defesa de Guiomar que percebi uma lágrima já seca, uma lágrima sertaneja, embebida pelo papel..É que confessa em tom desesperado: Ter visto o cadáver da mãe deitado impassível sobre a cova!, que podia ser vista da pesada janela do seu quarto..janela que vivia aberta, e acompanhada de seu corpo, dado ao sufocante- claudicante-constante -extenuante, infernal calor..

O Cadáver da Mãe!!!, e não o fantasma do cadáver da mãe, deixara claro em bom português!

Que diabos!..pensei, que diferença isto fazia, cadáveres, fantasmas, mulas com ou sem cabeça..quanta estupidez!..quanta crendice, quanta maluquice..


Me considero um homem de letras e de ciência, começava a ficar realmente incomodado com a presença daquele analfa..Beto, com a ‘existência’ da maldita prima e de minha malfadada sorte, ou azar, em ter sido alvo dessa insana saga..

Ofendido em minha pretensa inteligência materialista.

De todo, como poderia acreditar numa carta de alguém que nem sei se existiu..e o que teria eu a ver com tudo isto, por que me escolhera para atormentar com tão absurda história..todavia verão que no inverno, esta ficará ainda mais inacreditavelmente absurda..não que me importe por só um segundo no fato de acreditarem ou não, em verdade, ou em mentira, estou pouco me lixando..

Contudo histórias de fantasmas não são nenhuma novidade, quando muito são uma tradição esquecida, um sub-gênero à muito enterrado..desculpem-me o péssimo trocadilho, mas realmente tudo isto me tirou do sério..

Vou parar por alguns instantes e acender um cigarro..de sensimilla..

Pois bem, ou ‘pois mal‘, continuo..Ok...Muito original ela.. passou então a ver o cadáver da mãe, nesse ponto começo a desdenhar de Guiomar, sem saber ainda o verdadeiro ponto de tudo isto.

E daí?; penso!, o que mais a ‘doidinha da prima’ havia visto, ou tinha para me contar-atazanar? Imagino que vá chorar as mágoas e me dizer como era infeliz, que sentia a falta da mãe que mal conhecera..buá, buá, buá..blá, blá, blá..

E segue contando que a primeira vez que a viu, ou o viu; depois que nasceu, e depois que ela morreu, nessa ordem, e já que o cadáver é substantivo masculino, apesar deste ser de um ser ‘insubstancial‘, mas feminino..Estava debruçada na janela de seu quarto..

Como disse, e a título de curiosidade, para quem possa vir a ter, ou de esclarecimento para quem possa vir a não saber; esta janelas são enormes, irregulares e abrem verticalmente, deslizando para cima e sobre si mesmas, sendo seguras por duas pequenas e frágeis dobradiças em forma de borboleta..Segundo ela, passava ali a maior parte de seus dias, e agora de suas noites, como uma namoradeira, sem namorado, fazendo da janela sua ponte para o nada, sua escrivaninha, sua almofada..Alí pousava seu corpo, sua cabeça e suas mãos..Era noite alta, de lua alva, e Guiomar agnóstica que se tornara, afinal não se pode servir a três reis, nem que sejam magos!

Vislumbrara num lampejo por sobre o montículo algo de que a princípio não desconfiara..talvez algum animal dormindo!..talvez sonhando acordada..?

Só soube dizer que quando se deu conta do que vira, seu susto foi tão grande que bateu com a cabeça com muita força na janela, e ainda que muito pesada esta descera como um raio por sobre suas duas mãos petrificadas agarradas ainda ao batente, como se não quisessem se soltar..como se não quisesse acreditar..e num só golpe!, como numa guilhotina, a janela as decepa!!!.. estraçalhando a madeira, quebrando o vidro..

Me conta que antes de desmaiar e entre o barulho da janela se estraçalhando, em meio ao zumbido que ressoou em seu ouvido, conseguiu distinguir uma forte risada..

Nesse momento parei a leitura com as minha duas mãos trêmulas, ouvindo por minha vez um forte estrondo vindo de dentro de mim..por alguns segundos me veio um flash do momento em que o primo analfa..Beto, entrou pelo portão e me lembrei do forte cheiro que exalava..me lembrei que ele era analfabeto, pelo que descreveu a carta, por ter nascido surdo-mudo..me lembrei que ele havia desaparecido do mesmo modo que havia aparecido, me lembrei de meu pai, e da maldita tradição, leia-se maldição, de que nossa família era herdeira, e que todas as famílias nos fazem herdar..e da qual só ouvira falar até então..e por fim, só por fim, voltei a mim e ‘reparei’, ou melhor me dei conta, de que a data que sublinhava sua assinatura na maldita carta era posterior, é claro, ao dia em que Guiomar vira sua mãe; ou seu cadáver, se preferirem, pela última vez..

Elegia Pra Ela.

Te AmO!
AmO-Te..

Como Amo A(`)Vida?
Como Amo A(`)Morte!

Do fundo.
Do mais fundo..

-d(O)+ profundo-
(improfícuo segundo)

..dos oceanos.
(reminiscências dos anos)

Menina dos planos?
Reparação de todos
os danos!

Linha De Corte-

Do mais alto.
Dos mais altos
Altiplanos..

-Hexâmetros
Pentâmetros
Parâmetros
Métricos-

(Sexto
sentido
dum cético.)

..de nosso?!

Celeste.
Ardente.
Agreste..

Continente
Sul-Americano!

(..e vale mais
que todo ouro
saqueado..)

Nênia
Non-Sense.

Nasceu
No poema.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A CASA DO BANDO DO NADA_




Grande era a casa, consideravelmente grande, grande até demais se; e, comparada aos casebres do lugar, mas não gosto de comparações, nem de literatura comparada... Literatura vendida ou literatura comprada... Bem, ou mal lhes explico, se não me engano, pois; e, até agora só a vi em sonho, era em 'irrealidade', um tipo de palacete! O que arquitetural e social-mente falando, referendavam as medidas que talvez inebriado e iludido pelas armadilhas do sonho, tenham à mim parecido maior ou menor; no caso, maior! Entretanto, todavia ou contudo, lhes confio, e acreditem, até onde se pode acreditar, era grande a casa!!!

Mansão; com mansarda?, palacete?, sobrado? Contudo ou todavia, certamente entretanto ou entre tão pouco do que havia sobrado e, em função de haver se passado uns bons dois séculos de sua edificação, digo; o terreno como um todo, e vistas ao crescimento desordenado, da desordenada e desonrada humana raça, já não mais, nem menos, fazia jus nem parecia proporcional às dimensões da casa... Particularmente o jardim! Que não era desses à moda dos Versailles, e sim uma pequena floresta de heras; era quase tudo o que era! Flores que resistiam, aqui e acolá e, em particular, algumas poucas pequenas rosas, crisântemos e alguns jasmins... Jaziam espremidos entre folhas mortas e a pátina do tempo...

Um jardim inglês diria-se!?... Com tudo e sem nada, a esta altura de sua abandonada situação... A impressão que se ganhava, ou se perdia, era a de que; ainda maior fosse o jardim, e menor a casa... Tudo que sei e que posso lembrar é que por fim, ficara, uma vez diminuído o espaço dos terrenos em seu entorno, um jardim enorme!... Repleto de folhas, flores e sujeira... Cercando a grande casa..

Para a criação de um efeito primeiro da ordem do horror!?... E no intuito de fechar a descrição física do entorno-externo, ainda dentro do terreno, porém para além do jardim, talvez seja importante dizer que os espaços adjacentes que haviam restado e que faziam o desenho de seu contorno eram: à esquerda, um cemitério da família, atrás, um belo pomar e uma horta, à direita ficava aquilo que haveria de ter sido um tipo de playground, onde ainda se viam escombros de grandes brinquedos de madeira e um pequeno lago que se escondia por detrás de seus ombros...

Assim mesmo parece se dividir a vida... de um lado se brinca a esmo; do outro se mergulha pra eternidade...

Entrei casa adentro!, sonho afora -sonho, que de tão real está neste quase conto que conto, realmente, finalmente e friamente encarnado- por entre uma brecha do jardim, pelo lado e com o pé esquerdo!

É, ou melhor, talvez seja fundamental dizer-lhes que sempre fui idiotamente apaixonado por casas antigas e abandonadas, devo admitir que prefiro especialmente, e sobremaneira, as abandonadas! Não necessariamente caindo pelas beiradas, como a de Usher - ainda que Poe tenha sido como um pai pra mim - Tanto, ou tão Po'e'uco, mas provavelmente por enterrarem/entranharem - incidente em antares - histórias de vidas vividas sonhadas...


Muitas vezes me pego acordando, rolando, suando, rindo nervoso, desenganado e crendo ter sido algum fantasma em alguma “encadernação” passada, uma “alma pelada”! que perambulava pelos fundibulários, de alguma destas casas...

Sonho; enfim, em mim, muitas meninices, sobretudo acordado.

Escolhi entrar rodando rondando ronronando por este lado: primeiramente por gostar de pensar que tenha um pensamento de esquerda!, todavia e sobretudo, por haver apercebido-me de que este dava, a partir dos fundos, acesso por uma porta de serviço que me pareceu menos pesada, ou emperrada que a porta principal, que aliás, zás!, me amedrontou de pronto, pois me lembrou o Portão do Inferno; de Rodin.

Mister e misterioso dizer que: reparei em, e só não lhes confidenciei até então, por simplesmente não os haver visto ou entendido-os... Gatos! Entre os túmulos, muitos gatos... Nem todos pretos, não vou forçar o efeito, ou mentir desavergonhadamente, porém quase todos livres! 'Nós gatos já nascemos pobres, porém todos todos livres...

E todos muitos!

Sei o que vi! e o que passei a ouvir, um número significativo, e numa primeira vista d´olhos, quase incontável de gatos, gatos de todas as cores, todos os sabores...

Ocorre que, como não sou exatamente supersticioso, sendo tão somente um cagão medroso, acariciei um bichano que cruzara meu caminho no batente da porta - num gesto de simpatia desesperada, de quem precisa ganhar confiança pra si, e junto à maioria - que para minha gata surpresa se encontrava entre aberta; entre aberta e arrombada!?! Difícil dizer, todavia não toda aberta ou escancarada, contudo aberta! Entrei...

Vazia como uma alma humana, estava a casa! Desnecessário dizer, pois não imaginei mesmo que estivesse cheia de prataria, cristais, armaduras, mármores, marfins, ébanos, louças ou telas rembrandtescas..

As únicas coisas diferentes que pude perceber foram alguns felinos de tamanhos variados, empalhados...

Afora à real idade destes, e em realidade; é que fora 'eles', só havia e via, um monte de poeira, cocô de morcego e de gato...

Como disse e venho des-crê-vendo-os... Para que fique melhor entendido e tido, farei agora uma breve descrição da parte interna - descrição que; com os excertos, e os errados, do que já descrevi da parte externa -, espero satisfazer os mais curiosos, minuciosos, ociosos e tediosos... Ou aos que como eu, acreditam também haver assombrado, assomado à alguma dessas casas, em alguma dessas eras...

Me faltou precisar, e agora preciso lhes lembrar, de que: a casa possuía, como não poderia deixar de ser, em uma dessa magnitude - um porão e um sótão, meio mansarda...

Sou apenas um rapaz latindo e sul americano, suburbano de todas as periferias! e nunca entendi muito bem os rigores e dissabores da aristocracia, com isso não saberia precisar, se era só um sótão?, ou como disse: uma mansão com mansarda!?

Fato é que adentrei-a pela esquerda e pelos fundos! -por onde acostumaram-se os não aristocratas; a entrarem.

Alcei dois ou três cômodos, até alcançar o que fora uma bela cozinha. Logo na sequência se encontravam a copa e mais algumas salas menores que se desdobravam e se desencontravam até encontrarem a sala principal -principesca-, as janelas e a porta de entrada.

Do lado direito do grande salão, havia uma esquecida escada... Esqueço-me de mencionar que de fora, a casa parecia ter dois ou três andares... Contudo, agora e uma vez dentro... Ainda que atrasado, posso lhes garantir que eram três! Contando o sótão; só tão sótão, ou mansa mansarda, e bem descontado o porão.

Em forma de vento era a escada... De tal forma, a não ter forma de nada, a não ser de escada.

No segundo andar... Veja bem: como não quero parecer enfadonho, pois se não tiveres particular interesse em questões de conservação e patrimônio - deveria me ater à uma descrição mais geral do cômodos, o que poderia ser menos incômodo e 'garantiria com mais garantia a vossa simpatia' por este pequeno conto grande devaneio, e talvez com isto continuaríamos bons amigos.

O que posso lhes adiantar em resumo, e que é o que vim aqui neste espaço anotar, nessa tela pintar, não é; afinal, um relatório de visitas do instituto do patrimônio histórico e artístico nacional, tão pouco história da carochinha, mas sim um armistício! contra toda lógica, bom senso e mesmo contra a própria realidade!

No segundo andar estavam os quatro quadrados quartos !!!!... Enormes e todos assentados em nobre madeira.

No sótão, para minha maior decepção de apaixonado, também não havia nada... Nada além de cocô de morcego e de gato... Insignificante lembrar que, mesmo em sonho, a casa fedia.

Fedia um fedor-estupor, pode-se supor, de cocô e de morte!

Desci decepcionado, decepado em minha mórbida curiosidade... Desci pela escada em forma de nada
atravessei a copa, alguns cômodos, a cozinha e, incomodado com a sanidade em comodato, saí em busca da entrada do porão, de onde vinha um cheiro ainda mais forte, e de onde esperava muito sinceramente encontrar alguma pequena peça ou alguma grande relíquia que me tirasse o sono, do sonho que sonhava - ainda que se isto ocorresse eu acordaria- e jamais saberíamos o que aconteceu, ou parece haver acontecido.

Apesar de que ao final, se não me engano, se não lhes engano -ledo engano-... Foi isso mesmo, o que aconteceu!?

Encontrei a entrada para o porão, na tal lateral que dava para o que havia sido o playground... Empurrei a porta ansioso e já um tanto sôfrego!

No que desci, subiu um cheiro dos infernos!... Sentido literal & literário... Fiz menção de me deter, senti o nariz quase a derreter, mas mesmo que o fedor fosse extremo, minha curiosidade é sempre maior em maio...

Esperei uns instantes para que o ar circulasse ou algum vento ventasse, não me importando qual o um dos dois, acontecesse primeiro.

Entre meios, entre medos, me apercebi de que a escuridão era praticamente absoluta, e me pus a imaginar um modo de, a um só tempo clarear a situação e amenizar o odor insuportável que subia vagarosamente, do fundo daquele porão... De súbito, tive uma luz!

Fiz a volta completa em torno da casa, passando pelo jardim, e recolhi alguns gravetos e folhas murchas - do cemitério da família - colhi ainda flores mortas e uns pedaços de cruzes de madeira podres. Amarrei aquilo tudo com um terço de um terço -o dia era a noite; de uma terça feira 13-, e transformei aquilo tudo numa espécie de tocha, com a qual poderia jurar conseguir iluminar aquele buraco fedido que a arquitetura me obriga a chamar de porão.

Em cima de um dos túmulos havia um frasco de água de colônia e mais alguns objetos (voadores) não identificados, restos de um costume antigo não muito usual no ocidente, de presentear os mortos.

Ou talvez simplesmente um modo inconsciente de amenizar o podre báfio que os cemitérios exalam...

Joguei um pouco da colônia naquele chumaço de madeira, galhos e flores... Atirei o pau no gato?, e o frasco escada abaixo - que ao se espatifar - amenizou o cheiro de morte que exalava daquele lugar...

Acendi o buquê de defunto, sou usuário de substâncias ilegais, neste país, -paraísos artificiais- extra oficiais- e; escrevo, com isso sempre carrego isqueiros, papéis e canetas.

Me enchi com um muito pouco da coragem que trazia comigo, desci cautelosa e caudalosamente... À socapa, num só pé, ainda que em verdade tenha e mantenha; os dois, e percorri os quatro, ou mais, cantos, os quantos?, do silencioso porão.

Para minha tristeza e decepção, além de algumas peças de madeira, e de cocô de gato, nada nada nada nada encontrara!

A Casa Do Bando Do Nada! Eram os diabos dos gatos o bando, e o nada tudo o que restara da maldita casa !?

Mesmo assim, convencido que sou, não me dei por vencido, pois apesar do cheiro haver diminuído ou talvez apenas se confundido... Ainda era forte, ainda exalava em todas as direções!, e não me parecia apenas o cheiro de infelizes fezes felinas...

Arqueólogo frustrado, urbano-suburbano, desbravador de porra nenhuma, bravateador de merda, ou no caso de fezes, como queiram; que sou, ou que, ao menos gosto de imaginar que o seja... Esmerei-me esgueirei-me em procurar alguma outra porta escondida, uma fenda ou algum buraco que magicamente me levasse à alguma outra sala ou qualquer coisa, que o não, valha!?

Vã batalha... Nada de nada, de nada... Já cabisbaixo, fedendo à cocô de gato, flores mortas, fumaça e colônia barata... Já a um passo da escada, pronto a admitir minha completa derrota... Pisei mais forte, para tomar impulso e reunir minhas últimas forças para subir - sôfrego e sem fôlego - a escada... Escorreguei e caí numa queda abrupta e repentina, por entre um alçapão, que me jogou uns bons metros mais para o fundo do porão!

Caí, meio em pé, meio caído, como um gato assustado e escaldado, esbaforido com o buquê de defunto já quase completamente sem vida e em vias de se apagar por completo... Aterrorizado!, com a cocha bamba e dolorida...

Saquei todos os papéis que carregava, tateei em busca de meu zíppo e zapt!

Consegui reaver aquilo que desde os primórdios da humanidade tanto buscávamos controlar-

Respirei fundo, com o que me fora possível, e o que não fosse fumaça, sentindo agora um cheiro ainda mais nauseabundo... Limpei meus olhos com a camisa, e finalmente vi o que era, e de onde vinha aquele fedor insuportável.

Comida de gato, muita comida de gato, latas e latas de comida de gato, comida de gato de todas as marcas, épocas, abertas, fechadas, nacionais e importadas! Latas e mais latas... Latas para todos os lados, lados para todas as latas!

Um cemitério de latas de comida de gato! & no fundo, bem no fundo no sub-humano submundo escondido, impassível...

Um gigantesco gato!, da cor da mais escura das noites, com olhos cor fogo, do mais infernal dos fogos, me fitou...

E num só salto! - engoliu este que lhes ex-crê-via?