segunda-feira, 4 de março de 2013

Compreendes Mendes?!

..Redução de custos!?

Perguntara pela terceira, ou quarta vez, com um ar vago de quem ‘ligou o: foda-se!‘, já na segunda vez..

Compreendera da primeira; ocorre que, já na segunda, se emparedara por dentro, trancando o jazigo e engolindo a chave.

O Sr. Horácio Quiroga, chefe encarregado da obra -literária?!- da construtora Mendes Júnior..era Uruguaio naturalizado Argentino, amante de mulheres de vida; mais pretensamente fácil, que as demais, de boleros, tangos, cumbias e chá chá chás..e de um bom trago de traçado acompanhado de um bom carteado..um bom filho de puta e marinheiro, que se formou em química e administração em alguma faculdade ‘porqueira-portenha‘, que algum dEU´s a tenha..

O Fato é que Mendes, filho de um funcionário heróico desta empresa, da qual sobrevivia agora, ele mesmo!..Nascera e crescera em obras, obras das mais variadas, de pontes à túneis, hidrelétricas, portos..passando por estradas..

Com isso e talvez; por isso, tenha se tornado um mezo vagabundo-vagamundo, ele mesmo!..Não tendo se formando em coisa alguma, não se prendeu à alguma coisa, não possuindo; com isso, porra nenhuma.. Tendo se tornado todavia, P..h.d em existência.. -sobretudo em desistência.

Nunca parou, ou passou, muito mais de que alguns poucos anos, tendo vivido em tantos ‘portos’ diferentes, dos quais não perdera a conta; em um mesmo lugar.

Desenvolveu com isso um desenraizamento desterramento destelhamento interno -com a profundidade de uma plataforma de petróleo-..Sangue Negro!

Contudo todas essas experiências de vida trouxeram lhe alguma sapiência, não confundir com inteligência, que ele sabia adestrar com destreza..Tendo, por exemplo, desenvolvido um amor pelas artes, pela literatura sobremaneira e pela luta de classes!, influências de seu pai, dizia!..e que o levaram finalmente; ao seu fim, diria!

Ninguém mais rico, que aquele que tem conhecimento..Ninguém mais pobre, que o poeta..Ninguém mais triste, que o profeta..Ninguém mais feliz, que o ignorante..

Uma vez que tendo ficado nos meios dos caminhos da vida, pois a melhor posição que conseguira atingir em sua infrene (in)existência foi, a de; Peão de obra!, daqueles combativos! Todavia, ‘socialmente falando‘, ainda assim, um simples peão de obra.

Ocorre dentre outras várias questões que poderia levantar a cerca da formação do caráter desse hom.. (...)..desse, monstro!?.. É que Mendes como todo bom frustrado-pseudo-intelectualizado, sempre bebera além do ’socialmente aceito’..tendo tido inclusive, diga-se de passagem, algumas passagens pela polícia, por manicômios, internações, depressões, ‘epfanizações‘..‘hibernações’..sessões de A.A...Afinal: antes um bêbado conhecido de que uma alcoólatra anônimo!- pode-se dizer; problemas com quase todo tipo de substâncias, legais, ilegais..mais ou menos..e tendo dependido de praticamente todo tipo de dependência..independência ou morte..desordem e regresso..

(Nota: Por sorte essa é uma antiga história..-talvez uma lenda urbana, talvez apenas uma lenda, ou narrativa de Herculano..? Com isso nosso protagonista, não conhecera o crack ou coisas piores que sabemos que existem..insistem..)

Decorre disso, e como não falharia em ser, que desde muito cedo saiu de casa, ou melhor: saíram com ele de casa! E desde muito cedo ele pulou de galho em galho, formando uma personalidade digamos; pululante-pusilânime..Um Símio Social..?!
-semi-social-

Resulta que, com tudo isso, Mendes sempre teve problemas para se fixar em uma casa, um trabalho ou relação..

Aquela era sua última chance!!!, e lhe escorria junto a água, pela capa molhada da pesada chuva que se abatia sobre a obra, e sobre ele, na empresa da vida..

‘Chance’ que conseguira junto ao Sr. Quiroga, depois de inúmeros tragos e brindes levantados à memória de seu pai..que ele mais uma vez não honrara..

Havia ainda aliado a isso e como nunca fosse o suficiente..pouco tempo, muito pouco tempo para qualquer um se refazer, diga-se de passagem ou de sacanagem..desde que havia terminado um relacionamento-casamento-..

‘Casamento’ que conseguira junto à Sra. Alda, depois de inúmeros tragos e brindes levantados, na casa desta família- amiga da família-, à memória de sua mãe..que ele mais uma vez não honrara..

Como, os “Quadros de uma exposição”, que Mussorgsky compôs, o quadro geral da vida deste, que vim aqui neste, não sei bem o quê, expor; está pintado!



O que pretendo doravante fazer é justamente percorrer o caminho inverso, e literalmente ir lhe tirando as cores; duplo sentido, para que possamos, talvez, chegar à raiz de tudo isso!?


O que lhes devo adiantar, caso me fosse perguntado..Não acredito conseguir!
Fica; pois, a tentativa.
-persiste o erro-.

Retirada a primeira camada, temos um pai morto por enforcamento, uma mãe tresloucada e dois irmãos imprestáveis - desprezíveis.. Assim sendo e tendo assim sido..ele foi pouco a pouco, e inevitavelmente?!, se mudando para barracões, quartos, vagas de pensões cada vez
piores..e piores, piores das piores..até inevitavelmente cair com o olho, com a cara toda..no olho do cu -da rua!

-A rua é cega, surda e muda..muda todo o tempo..

Na rua, quem ainda tem um olho é rei! E quem dá o cu..rainha!

Seu primeiro destino, ´fixo’ foi um abrigo da prefeitura, que passou a freqüentar assiduamente, com a mesma assiduidade com que passou a freqüentar os butecos copos- sujos, por toda cidade..uma vez que o segundo passo para um morador de rua, ou mendigo, como burguesamente (re)conhecemos, é se tornar um andarilho..conseqüência causal-

* Abro agora um buraco no tempo e na narrativa, para esmiuçar um recanto do coração deste homem que se abriu ainda muito jovem e que se desenvolveu como um câncer..como corrupção política, como o sistema financeiro, como a religião..

Por ter sido cria de um pai que em nada cria, de uma mãe que nada fazia e de irmãos que dele nada queriam, davam ou recebiam..se tornou um misantropo, desafeito à afetos!..com o andar da carrocinha e na altura do campeonato, de várzea, que se tornara sua vida..chegava mesmo a sentir nojo das pessoas!, desprezo!, repúdio!, repulsa!..um ódio tão profundo e genuíno pela raça humana como um todo, transbordava nele, como lava..

Pelas famílias em particular e pelas instituições de um modo geral !!!

Tapo o buraco-

Dito isto, eu volto às ruas, que é onde estamos agora, seguindo solitário(?)..os passos de nosso Anti-Antes-Herói..?!

Nessas ida e vindas pelos abrigos da vida, e por não ser um completo alienado, passou a hipócritamente, puxar papo e saco de: policiais, médicos, enfermeiros e carcereiros, que conheceu em algumas ocasionais noites na cadeia; e, foi se inteirando pouco à pouco da existência ativa de alguns grupos específicos dentro dessas corporações e instituições, que tratavam das questões ligadas aos ’moradores de rua’, sejam eles mendigos, ou sejam, lá o que; o não, valha!?

..de uma forma, digamos..pouco ortodoxa..

O tempo nas ruas voa devagar, e quanto mais sem o que fazer ficamos, mais temos tempo pra pensar; repensar; pensar; repensar..repensar e repensar..

Mais rápido o tempo passa, mais devagar as coisas acontecem..mais a imaginação toma conta da razão e sobretudo turva a curva que finda na esquina do coração..

Foi numa dessas noites de vagabundo iluminado, como quis Kerouac, que Mendes se pôs, depois de emborcar a segunda garrafa de ximboquinha, num quase delírio de chá de lírio; à pensar..

-Mais particularmente depois que viu com um olho meio fechado e ouviu com os dois ouvidos totalmente abertos..um colega de dormitório que morrera a seu lado, ser negociado tranquilamente por um dos médicos de plantão, com um motorista de rabecão-:

“ ‘Dou’ dois por um!, tem o outro que morreu hoje cedo e que vocês ainda não vieram buscar..se pegarmos aquele caixão grande, que não coube o gordo da semana passada, eu já medi; cabem os dois!!!”.

..em realizar um antigo e inconsciente sonho..em ‘ajudar’ de alguma antiga e impertinente forma..

Ao ouvir isso, lembra, seu susto e escárnio foram tamanhos, ainda que estivesse em delírio.., pois aquilo era repugnante de se ouvir ou imaginar, para qualquer um, mesmo para ele!..pensou e sentiu, num primeiro momento, com o resto de humanismo que lhe persistiam, e caiu do beliche como um copo lagoinha se estatelando no chão!

(Assustando sobremaneira, aos dois ‘servidores públicos’, que conversavam animosos discutindo detalhes de preços, condições de pagamento e retirada dos produtos..)

Depois disso passou aquela noite na enfermaria, com seu colega morto, coberto por um lençol cinza-escuro..como a noite...

Passado o primeiro momento e o impulso natural de civilidade!.. voltou discretamente a pensar em seu sonho antigo e sabe-se lá até que ponto; inconsciente..

Agora, nesse ponto podemos prosseguir retirando mais algumas camadas de tinta..da pátina do tempo..a pulverescência das palavras!

Deixaremos forçosamente; no entanto, a cor vermelha!

Mais alguns dias, mais alguns porres, mais algumas observações e movimentações se passaram, e foram tantas que se me quedasse para lhes contar em detalhes, não penso que teriam sequer tempo para perder, não com a literatura - esta raramente é perda de tempo-, mas com a vida miserável de tão abjeto ser...

Que!E!..tendo depois daquele dia fatídico-satírico..se recusado a voltar à aquele abrigo e/ou a qualquer um deles..

Encontrou-se na sua primeira grande encruzilhada, e não me refiro a encruzilhadinhas de despachos comuns, com suas galinhazinhas pretas, ‘Cidras Céreseres‘.. ‘farofas Pink’ e maços de ‘cigarrilhas St. James‘..de que ele tanto já se fartara..

Digo uma encruzilhada pessoal -uma cruzada pessoal !!!

Obviamente e novamente em ‘Delírio Extremens‘..ele viu, diz ter visto, uma entidade..
-eu mesmo penso que deve ter visto uma ‘autoridade‘-policial-!?..certamente qualquer coisa fruto de sua alteridade..

Enfim..não é o fim..

-E que este ‘ser superior‘, lhe sentenciara incisivo:

Odeia aos outros, como odeia a tí mesmo!
Se queres fazer o bem, o faça através do mal!!
Se lhe violentam com sua paz, pacifique-os com sua guerra!!!

Passas fome nas ruas, vives de humilhação -como um desgraçado cristão, eternamente ajoelhado no milho- sem ter, ainda, cometido sequer nenhum verdadeiro ‘pecado‘..

A tí ofereço a redenção“....Primeiro o erro!?, depois o perdão?!

Pois digo e vim para dizer:

Resolva sua sina matando seus semelhantes!..vendendo, profanando ou comendo seus corpos!!! Liberte as almas desse pobres desgraçados que como tu, sofrem nas ruas!

..sem entender muito bem o que, ou quem, era ‘aquilo’, sem raciocinar, tendo em mente que tudo que escutava era a verdade, pra ele - imanente!..

Sacou do facão que embanhava como um príncipe plebeu e imolou o sujeito que dormia profunda, e agora eternamente, à uns poucos passos dali...

Não satisfeito e enfeitiçado pelas palavras e pela presença.. fez o serviço completo..profanou seu corpo como um velho templário fazia com as mesquitas que encontrava pelo caminho e cozinhou-o noite adentro, num panelão de ferro, do qual era proprietário, com água do córrego do qual não era proprietário..

E se saciou pândego, bêbedo de exasperação e de álcool, daquele nada insípido jantar..

Acordou com o primeiro raio de sol, mas não com sua última ressaca..sentiu uma paz inenarrável invadindo àquilo a que chamamos de alma.. Sem culpa, sem desculpa, sem excitação ou remorso, atirou o que restara do corpo para uns cachorros que já haviam daqui e Dalí começado o serviço de limpeza durante a noite, e‘enterrou’ o que sobrou por ali mesmo.

Recomeçou a bebedeira, chutou a macumba e saiu na sua peregrinação-preambulação pela cidade-.

Aquele manjar funéreo, obviamente, fisicamente, não lhe fizera muito bem, e nos primeiros dias, vomitou e suou tanto que ele mesmo parecia mais um cadáver!

Numa dessas ocasiões acabou sendo recolhido compulsoriamente à um abrigo, e como o destino não está nesse mundo de passagem..foi parar exatamente naquele em que tudo isso, se não começou, ao menos despertou..

E por lá, alguns dias depois, ao ver os mesmos médicos e profissionais com as mesmas práticas e com a mesma ética. ‘Éticas’ essas que são alíás, práticas, em quase todas as instituições desse país: as da mais valia, da vantagem, da oportunidade, do cinismo, da vileza, da injúria, da injustiça e de tantos ou quantos etc; etc; etc; etc´ssss- pudermos inscrever numa folha de papel, ou na tela de um computador-

* Nascemos, crescemos, nos desenvolvemos e nos envolvemos..vendo-tendo políticos, patrões e empresários que matam direta e indiretamente milhões!..por milhões ou por ninharia, por pura mesquinharia..putaria!

- Por que se culpar, então? Pensava-..não totalmente destituído de razão..

No ápice de sua loucura, arquitetara como Hitler..a solução final..?!

Chamou o motorista do IML, que vira na ocasião ( pensou que conversar com o lado mais fraco da corda, poderia ser uma estratégia mais eficiente, num primeiro momento), e lhe disse sem grandes rodeios:

- Já nos conhecemos a um bom tempo, e tenho visto e ouvido coisas que sabe que acontecem aqui, e em muitos outros lugares, e que também sei..

..no que o cidadão assustado, lhe responde que não estava entendendo que conversa era aquela e onde ele queria chegar..

Mendes não recuou e lhe contou tudo que havia visto e ouvido!E o que queria em troca..

É até besteira dizer que num primeiro momento o motorista usou a velha tática facínora de se sentir ofendido e negar..até, quase, à morte!?.

Passados alguns dias, entretanto, diante da insistência de Mendes, e pior, da iminência de uma acusação, oferece ao nosso Anti-Antes-herói...O seguinte acordo..

‘Conversei com o esquema todo, da polícia aos colegas motoristas, e depois de muito titubearem, se convenceram, e devo dizer até se animaram, quando argumentei que você era o despiste perfeito, e que pensando bem, estava era até fazendo um favor pro prefeito!’-leia-se o bode espiatório do século-

Afinal conclui o cão..de quem mais, ou menos, se poderia desconfiar?!..além de que, faria era uma limpeza urbana, praticamente um serviço a sociedade, isso sim!

( Nesse momento ele para pra pensar, e pela primeira vez, naquilo tudo.
Não, nunca quisera servir a sociedade, sua saciedade era pura e simplesmente comer seus semelhantes numa espécie de ritual de purificação através do sangue..
Não, não queria trocar cadáveres por cachaça ou por comida, ou mesmo por dinheiro, o que queria era comê-los!!!

Pensara no que lera, no que seu pai lhe ensinara, na luta de classes,no canibalismo social..)

Mas forçosa e diabolicamente, nada disso lhes confesou, tendo assentido, e fingindo júbilo em ser o serviçal mais baixo dessa irmandade..

Refletiu que teria sua vingança a seu tempo e a seu termo..Queriam simples corpos, simples corpos teriam..

Afinal, um bom negócio, só é bom, quando é bom para todos os envolvidos !?!

-Aprendeu com o capetalismo-

E foram muitos os bons negócios que fizeram, tendo sido benéfico, como disse, para os poderes municipais, para os policiais, para os empresários do ramo imobiliário, para alguns cursos de medicina legais e ilegais!?, vendedores de churrasquinho e comerciantes do centro da cidade de uma maneira geral..

Por vezes Mendes ainda comia um ou outro de seus ‘convivas‘, em momentos de grande angústia, ainda que soubesse que não haveria jamais, carne humana suficiente, para aliviar todo o seu ódio..

3 comentários:

  1. Terceiro conto publicado..!Conclamo os leitores a me ajudarem na revisão..com observações críticas..escrever é um exercíco solitário, ingrato e sem valor..Chega-se a um ponto tal de exaustão que não se consegue mais enxergar os próprios erros..sejam simplesmente gramaticais ou mesmo de coerência e coesão..mas o que vale é o tesão e a confusão mental gerada pela leitura..o todo!.o nada eu deixo para os que nada produzem de original, a não ser críticas..Abraços sinceros..
    Guaraci Merlhieg

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  2. Um tanto mórbido, longo, angustiante, mas intensamente interessante!

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    1. ..essa é(ra) a idéia! Valeu querida leitora..ideal!

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